Ultra Brasil 2017 — Os erros e acertos do festival [REVIEW]

outubro 18, 2017


Todo mundo que acompanhou a sequência de problemas enfrentados para a realização do Ultra Brasil 2016 percebeu que os organizadores foram muito insistentes e dignos de admiração. Em meio à guerra com a prefeitura e mudança de local poucos dias antes do festival (com a estrutura já sendo erguida na Quinta da Boa Vista), ficou difícil não compreendermos que tamanha desorganização em certos aspectos do evento deveu-se a essa implicância cruel da prefeitura com o festival de música eletrônica. Talvez por isso tenha sido fácil para o Ultra ganhar uma chance de se redimir com os brasileiros.

No último final de semana, o considerado melhor festival de música eletrônica do mundo realizou sua segunda edição nos dias 12, 13 e 14 de outubro de 2017, e, devido aos problemas enfrentados no ano passado, a organização do evento precisou trabalhar com grandes promessas de reformulação e expansão para conseguir manter e aumentar o público neste ano.

Já na confirmação oficial desta edição, tivemos a surpresa de saber que a duração do festival seria prolongada para 3 dias. Outras novidades também foram implementadas em relação à primeira edição, como a utilização de um espaço imensamente maior dentro do sambódromo e a inclusão de novos espaços de descanso e de alimentação no festival, que de fato foram muito úteis e agradou o público. O festival continuou contando com os três palcos da edição passada (não houve o palco A State Of Trance, assinado por Armin Van Buuren, como muitos esperavam), mas sem dúvidas foi bem mais respeitoso com o público, trazendo um Resistance e um UMF Radiocom estruturas mil vezes melhores que as do ano passado. O lineup trouxe novamente nomes internacionais de peso e bastante artista da cena brasileira.

A bass music, embora em menor quantidade em relação ao ano passado, foi muito bem representada por Knife Party, Marshmello, Feed Me e (pasme!) David Guetta. Com shows de duração média entre 1h e 1h20, esses caras não tiveram piedade alguma na hora de soltar o famigerado som pesado. Knife Party, que não vinha ao Brasil desde o EDC 2015, causou com um set lotado dos maiores hits do duo e os amantes de um bass “nada leve” não tiveram 1 minuto de descanso sequer. Marshmello surpreendeu até mesmo a quem presenciou seu show ocorrido no início do ano no Lollapalooza Brasil. Com um set infinitamente mais pesado do que no Lolla (mas ainda conseguindo manter aquela essência gostosinha de seus shows), ele deixou a pista do Ultra eufórica do início ao fim. Sem dúvidas, um dos shows mais animados e envolventes desta edição! Feed Me contou com um audiovisual incomparável, e David Guetta surpreendeu os brasileiros fechando o festival com um set que mesclou perfeitamente seus hits e a bass music (com uma atenção admirável ao trap).



O que mais nos chamou a atenção é que, ainda com shows tão bons e das mais diversas vertentes, o festival conseguiu deixar a desejar na comunicação e na organização, o que nos comprovou que o maior problema do Ultra no nosso país, diferentemente de outros festivais, está longe de ser o lineup. Aqui, a força negativa de fato se situa nos problemas internos da organização, e foi nesta edição que pudemos ver isso de forma mais clara através de alguns dos aspectos mais comentados pelo público:

O ACESSO AO EVENTO
Já na entrada do sambódromo, as pessoas encontravam uma fila que dava volta ao redor da quadra do local escolhido. Embora a parte externa contasse com a presença de policiais, a segurança era insuficiente para a quantidade de pessoas presentes na fila aguardando do lado de fora para poder entrar.

O ATRASO NO SEGUNDO DIA
Não se sabe ao certo os problemas que os organizadores enfrentaram, mas no segundo dia do evento houve um atraso de 2 horas para o início dos shows, o que causou o atraso dos horários dos shows, tal como a mudança da ordem das apresentações. O show do Malaa, sendo o caso mais comentado, anunciado como o quinto da noite (20:15hrs), foi o que surpreendentemente fechou a noite, com o horário atualizado para às 2:30 da manhã. Ainda por conta do atraso, a organização anunciou no próprio evento e nas redes sociais que, excepcionalmente neste dia, o festival iria até às 4:00 da manhã, aparentemente sem permissão da prefeitura, o que levou a todos serem pegos de surpresa quando o Malaa foi retirado do palco principal por já ter excedido o horário permitido em acordo prévio com a prefeitura (2:00). Momentos depois, a organização conseguiu a liberação para mais 30 minutos de evento, permitindo que o artista concluísse seu set, mas ainda assim com 30 minutos a menos de duração em relação ao que era previsto. Nos outros dois dias, felizmente, não houveram problemas consideráveis com horários ou ordens de shows.

A VELHA SAGA DA SEGURANÇA
A falta de segurança é sempre um problema a ser resolvido nos festivais do nosso país, então a gente sempre espera que o próximo festival vá se preocupar um pouco mais com a segurança do público, mas essa esperança é sempre um motivo de decepção. São incontáveis os depoimentos de pessoas que são furtadas em festivais, e dessa vez não foi diferente (especialmente com a promoção de entrada de graça na sexta-feira até às 19:00 para qualquer pessoa com nome na lista, o que colaborou para a superlotação e consequentemente também para a maior vulnerabilidade no que se refere a furtos).

A RELAÇÃO ULTRA X PÚBLICO NAS REDES SOCIAIS
Como dito no início do review, um dos pilares que seria interessante o Ultra Brasil rever é a falta de comunicação. A comunicação do festival nas redes sociais é muito objetiva e pouco eficaz, o que não aprofunda a relação direta com as pessoas que precisam sanar dúvidas referentes ao evento, o que distancia o festival de seu público e gera insatisfação. Além disso, algumas novidades ou atualizações que acontecem acabam não sendo anunciados oficialmente nas redes sociais, deixando o público sem conhecimento daquilo que está acontecendo, como a questão do reenvio de ingressos a 1 mês do evento às pessoas que compraram na pré-venda com a Ingresso Rápido antes desta empresa encerrar o contrato com o Ultra, reenvio que ocorreu via e-mail mas sem que houvesse algum aviso oficial do Ultra em suas redes sociais.

A NÃO TRANSMISSÃO AO VIVO
Talvez não tenha feito tanta falta para quem foi e apenas pretendia rever os sets, mas boa parte do público que sempre se interessa em acompanhar ficou insatisfeito com o fato de não ter havido transmissão exclusivamente nesta edição brasileira. Os motivos ainda não são certos, mas sem dúvidas foi algo que não soou bem para o público.

VISÃO GERAL
Com certeza há ainda muitos fatores que devem ser revistos e corrigidos pela organização do Ultra em nosso país. Continuamos insistindo na ideia de que além de outros fatores, uma comunicação mais clara, recorrente e precisa fortaleceria (e muito) a credibilidade do festival no Brasil. Uns dos aspectos principais como o lineup, as estruturas dos palcos, os efeitos visuais e os sons estão de fato no mesmo nível de qualidade que os demais Ultras ao redor do mundo. Sabemos claramente que organizar um evento desse porte requer muito cuidado e que sempre uma coisa ou outra vai inevitavelmente gerar críticas negativas, a grande questão é saber atentar-se às críticas ocorridas e fazer da melhor forma para não repetir os problemas que geraram insatisfação no público neste ano e no ano passado para fazer uma edição do caralho em 2018.

Por @isadoraduart_

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